Kahê em pessoa
Potências que existem em nós.
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A invenção das cores
A invenção das cores

Ainda viveremos janeiros apressados,
quentes e ensolarados  
E se formos ligeiros, não chegaremos ao sol.
O sol está presente, parado à nossa frente, apontando o navio no azulão da encosta.
Hoje à noite jantaremos o mar
Fiaremos peixes em anzóis de milagres Atravessaremos montanhas
Andaremos sobre as águas ...
Do outro lado da montanha reside o mundo.
Começarei a escalada.
Chegarei ao mundo festivo
Onde as cores foram inventadas.
O sal. O fogo. O deserto. Carrilhões de estrelas.
O índio. A taba. O tambor.
O que eu não puder conhecer, receberei em poesia.

Meus primeiros passos começam em fevereiro.
Desde então, não paro mais de errar.
Observo carnavais febris, revejo fogueiras acesas, chuvas apagadas nas matas...
Observo a lua, ouço o tal clarim de coturnos
Persigo a malta, persigo a matilha, acordei a madrugada...
Esses marcos ficaram na antessala dos meus sonhos.

Em março, o Brasil recomeça novinho,  debaixo de enxurradas.
Depois que a chuva passar, teremos aulas nos vagões
Teremos trovões turbinados, relâmpagos em néon, ternuras com flores, lágrimas e mortalhas.
Novinho em folha, banhado no leite das luas
encontrarei as primeiras palavras,
quebrarei tratos, não irei ao primeiro encontro.
Na maturidade saberei se foi desencanto
com o que se perdeu.

Depois de atravessar a montanha,
subiremos ao outono. O outono é paciente.
É bondoso. Não inveja. Não se vangloria.
Não se orgulha,
Quem se orgulha é o inusitado
que chegará bêbado, em pêlo,
carregado pelos braços das epifanias.

O livro se abrirá, e se desdobrará sem vida.
Depois do carnaval vestiremos a farda dos enunciados.
Abril. Páscoa. Paixão.
Fórmulas magicas de enfrentar o tempo.
Joaquim Maria Machado de Assis, assistiremos
aos teus sagrados renascimentos.
Em tardes de desmaios, conhecerei Vivaldi,
ouvirei os clássicos, deitado sobre as flores da Alemanha, as mais belas flores...
Eu gostaria de revivê-las, acolhê-las,
viver entre as luzes coloridas de suas pétalas.

Junho esfriou comigo.
Chegou-me em pedaços, desenhando tapetes de carpas.
Ele viu a montanha nevar.
Ele viu as onças descerem à cidade
conferindo novidades, namorando as vitrines, desenhando tapetes de Corpus Christi ...

Na Piazza Navona, ouvi o melhor pé de serra.
A serra remontando cores, quadros em pedaços, desenhos remontados na fé.
Recolhi as moedas em meu chapéu,
Juntei às moedas da fonte
fui gastar em apostas no Coliseu.

O bagulho ferveu.
Pó de todas as serras,
baião de muitos doidos...
Julho ficou emocional.
O veio fino, o vento frio, o vinho seco,
os corações tristes, adocicados,
trouxeram invernos molhados.

Meu filho já havia chegado
Minha mãe já havia nascido
A graça nasceu em nossos braços.
Tivemos gosto em trazê-la.
Molhei seu rosto na chuva fina de agosto,
quando os automóveis ficaram, parados,
olhando a chuva.

A música de um acordeón deslizou
em meus dedos.
Setembro nos atravessou com fanfarras.
Eu me lembro de tudo.
Finjo esquecer, mas a primavera
chegou em meu quintal e um escorpião partiu
de dentro do meu quadril.
Outubros virão e trarão novidade.
Acenderei montanhas geladas
acenderei meu cigarro na tua pedra de luz.

Em casa, brotaram fileiras de Anjos.
Éramos nove. Nove, sempre seremos.
Novecentas bocas com fome.
Novembros de amores.
Revólveres com flores servindo de arranjos.
Ossos nobres.
A fila, que já era enorme, cresce
A sopa de pobres.
Açores trouxe as cores em odres plenos
Dezembros vazios.
Deslembramos os melhores atores.
Que tristeza, o desamor.
Nós os humanos, somos todos iguais
em maldade.
Diferentes com os amores.
Abro o calendário anual, ausculto suas páginas
e vejo vir vindo de dentro... Vem veloz e vai atravessar o tempo, vai acender a pira do mundo...
Um turbilhão de cores.
O que será?
Não sei.
Sei que é o futuro.
Lá, estaremos.
CK
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 27/03/2026
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