Apresentação do livro novo
A Gênese.
Eu gosto da palavra. Gosto da ideia de princípio e da sensação de origem... Gosto da inspiração sagrada que sugere e me insere como personagem deste universo espiritual, onde sinto-me integralmente pertencido e admirador da fundação e do princípio de tudo o que passou a ser reconhecido como valores das nossas “Terras Grapiúnas”.
Neste conjunto de poemas, eu busco a natureza, e dentro desta, o homem – acendedor das realidades e criador dos fatos que deram origem à nossa história. A intenção primeira foi colocar nestas páginas, ainda que, lamentando, ou ressaltando, os símbolos de toda a beleza que são as pedras pretas; a asa riscada a ouro, da graúna; as amêndoas de ouro, do cacau; as teias gigantescas, da floresta; as pedras murmurantes dos rios; o areeiro, os riachos morenos, as tropas, o trabalho errante, as choças habitáveis, a invasão imperiosa, o vagido abissal da solidão, a quebra das identidades, princípios e fim de uma riqueza, e tantas outras imagens que precisaram da mão do homem, que as construiu e as destruiu, usando a amálgama do tempo, mas, que enfim, de alguma maneira elas chegaram até nós, ainda, em puro estado de poesia.
Octavio Paz dizia que o poeta usa a natureza como modelo, paradigma e fonte de inspiração. O homem, ele o concebia como um feixe de impulsos e reflexos, cuja função seria atravessar o tempo operando mudanças. Para Aristóteles, a poesia ocupa um lugar intermediário entre a história e a filosofia: a história reina sobre os fatos e a filosofia rege o mundo necessário ao poeta, que é um homem de desejos. O papel do poeta, nesse conjunto imperfeito é afastar a fome de realidade, mesmo que juntando o que é impossível ao verossímil, pois que é dessa maneira que ele constrói sua saga de inspiração.
Se o poeta é um homem de desejos, imagem e sentimentos são pontes que o desejo constrói, retirando do homem e da sua verdade. O resultado é a posse da identidade ancorada nos livros que nos chegam, sempre eivados de objetos e objetivos que antes, para os seres comuns, pareciam insondáveis.
O ato poético.
Somente aquele que é capaz de entregar-se aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e ação, pode se considerar escritor ou poeta de ofício? Poetas e escritores vivem armados: aquele que dorme desarmado, fica à mercê da inspiração fácil. Um poeta precisa viver desperto, se pretende encontrar nas coisas vivas motivos para a sua criação. Como escreveu Adélia Prado, “Eu sempre sonho que uma coisa gera, nunca nada está morto. O que nos parece vivo, aduba. O que parece estático espera.” Para entender como funcionava a Máquina do Mundo, Drummond deve ter buscado respaldo em Deus, para ser tão divino; e há aqueles que buscaram no cinema, na filosofia, na própria poesia, a imersão de suas ideias.
Um poeta não pode dormir, pois ele sabe que nada vem de graça, e as artes mantêm suas cumplicidades além de horas. Em 1619, Descartes sonhava com o Espírito da Verdade e daí saiu o Discurso do Método; portanto, não dormia; seu corpo descansava, enquanto a alma do homem inquieto fechava acordos com as genialidades.
A moderna literatura aplica-se no muito dizer e no pouco escrever. Deste modo, o verso moderno pede palavras limpas, rutilantes, pois a economia verbal é o caminho mais curto entre autor e leitor. Neste Tabocas, poesias, eu tentei criar um ato poético. Se fui bem-sucedido, não sei dizer. Que o diga o leitor, afinal o que conceitua um trabalho literário, não é (sempre) o fazer puro e simples do escritor: o mérito é (também) daquele que mergulha fundo, com o propósito de multiplicar narrativas e sentidos. Ao poeta, ainda cabe soltar as rédeas e tendências mais profundas, aprofundando ou destruindo elos que possam reunir o que é real ao ficcional, mas, até nessas planuras o leitor atento aprende a caminhar.
Afinal, o que são poemas?
Poema é a expressão de uma sociedade, fundamento e condição de sua existência, sempre tecida em palavras. A poesia pode ser o fator original com o qual toda a história, social ou individual, principia. Não sei como vêm nem como desaparecem, mas o ato de escrever nos transforma quando circunscreve (em nós) um desejo irredutível, sem imposição política ou religiosa, e faz transcender em nós um ato, um afã sentimental, uma mágica inexplicável que se insere em nossa alma e nos põe em busca de respostas que nunca teremos.
Octavio Paz dizia que, sem a palavra comum, não haveria poesia; e sem a palavra poética não haveria sociedade, estado, igreja e nem povo. Ele foi mais longe: a poesia para ser histórica, precisa trazer consigo dois sentidos complementares, inseparáveis e contraditórios – fatos e imagens. E se ela tiver o desejo de constituir-se em produtos social ou tornar-se uma condição prévia à existência de toda uma sociedade, ela precisa de muito mais do que fatos e imagens. Ela precisa de sentimento.
O que busco trazer neste conjunto de poemas inspirados nos valores inerentes à pedra de luz – que é a nossa Tabocas e o seu entorno – é reavivar as experiências originais, dar a elas novos sentidos, fundamentalmente, acender as luzes da imaginação de possíveis novos futuros escritores, e estabelecer um conjunto de valores referentes às riquezas já existentes, cravadas em nossas almas, desde a sua gênese.
CK
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 26/06/2025