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A barca dos amantes




A barca dos amantes

Na noite em que se casaria por amor, ele partiu, refletiu,
pensou, se pegou inseguro, desesperou-se... no entanto, partiu.
Arrancou as algemas morais do passado, depositadas no livro aberto
sobre o altar.
Evitou abraços efusivos, cavilosos, e partiu com a nau
dos corações pérfidos e orgulhosos.
Um alienígena aferido por olhares surpresos e curiosos,
da multidão que se abriu, clara e impura ao tecido pânico,
sem emissão de insultos, nem discursos, além do mínimo
intolerável.
A atenção pasma, intensa e rancorosa
cresceu a quase rachar as paredes daquele terrível deserto,
cujos olhares atentos pousaram sobre um terno.

Ninguém viu o homem, naquele momento.
Viram um terno em fuga.
Viram a sua deserção.
Viram uma realidade impura vencer o inesperado.

Viram o rosto transfigurado, pintado de mistérios,
sem ideias previamente programadas, senão
pela ideia fixa plasmada, insondável, pragmática,
de partir.

Partiu, pleno de egoísmos.
Pisou a conspiração contra o louco, ali presente,
mas incomunicável.
O doidivanas com arrulhos inexplicáveis, que resolveu
cavar o próprio abismo.
Feita anunciação, o homem inatingível fez breves desvios,
marchou em passos bêbados, abriu clareiras na multidão...
Fez o seu voo razoável, sem asas,

Ajeitou-se dentro de outro personagem. Iscariotes.
O judas egresso do geena, carregado de motivações,
que se alongaria em seus medos indiscerníveis
de transtornos e coragens incontornáveis...

Partiu,
Sem recorrer ao oportuno clarão das naturezas míticas
de momento, onde fora denunciado, embora a assembleia
comungasse da ideia silenciosa de haver alguém no fim do cais,
a inspirar-lhe e a dirigir aquele inferno contemporâneo,
sensível à insubmissão.

Quais elementos foram projetados naquela poesia?
Entre as dobras do desenho, entre as ruínas sangrentas do exílio,
ficou, ainda que restrito, o nada não explicado.

Ficou o algo mais, que demonstrou o pelo contrário...
Não restou uma consoante que arrefecesse a esperança de retorno
De um instante impregnado das certezas
e da inesperada e infeliz esperança de rendição.

Esse estrondo se deu na contundência do marasmo assistido
e tardiamente tumultuado, quando a riqueza da pérola dourada
lançou o seu contentamento contrário, ao alimentar
a total explicação do inverso, e infundir singularidades ardentes
e mal consumidas, por uma ligação débil e frágil,
em desacordo com os recursos plenos, já dominados.
Em pleno mar,
já no breu da noite, astros e tempestades saudaram
o novo par de amantes,
e a novidade abriu as portas cerradas do oceano,
para o mais novo e mais contundente desastre.

Doida, a bailar no espaço, a incerteza brincou no ar,
com as douradas borboletas roubadas à praia.  
Perdido dos sinais do tempo recente,
os amantes mergulharam no ar seco das novas aspirações.

E, dormindo sobre o torpor, mas acordados e embebidos,
pelo louvor da angústia, outra vez a ressaca quebrou-lhes
os ossos nos rochedos.
Outra vez, os astros projetaram, através da luz das escotilhas,
a luminosidade dos dias futuros.

Céus e terras se azularam diante de dois infinitos que se estreitaram
em insanos destinos.
A barca dos amantes, aquele ponto negro no azul, convulsionou-se,
entre as ondas bizarras que desequilibravam os infelizes.
Dias e noites, de assombrosas tempestades, se alternaram aos dias
de intenso azul.
Ao lilás dourado, ao ouro clássico sobre o azul sublime,
a dominarem o espaço.
E era tão grande o espaço, que a vida monótona, apreensiva e ansiosa
desdenhara dos abraços dos polvos enamorados.
Estranha naus paradas nas esquinas oceânicas turbinavam as ansiedades,
junto ao abismo que se abeirava do caos.
O cais ali tão incerto,
a natureza dos amantes tão distante,
quão longe estaria o sol naquela noite?
E a sonoridade dos enganos, que parecia estar sempre a observá-los?
Onde estariam?
Afastada, a espuma saltava sobre os astros
que despertavam as colônias de constelações, a voarem
sobre os traçados dos penhascos rígidos do Tenerife.
Abutres voavam ao sabor dos licorosos frutos dos damascos,
enquanto, no cenário azul, infinito,
milhões de canários preparavam o périplo extraordinário
dos Lanzarote's brancos a adornar-lhes os cabelos,
e acender as luzernas dos faróis do Tejo.
Cádiz ia aos meus ouvidos que no Faro estariam os destroços
dos impossíveis sonhos.
O farol da Andaluzia bêbada, arrastadas em ânsias e mágoas,
por Lucy martirizada,
continuaria deitada sobre os campos de morangos recheados
de falsos diamantes.
A embrutecida noite estrelada, sob a luz Marbella da costa
costeou a embarcação, onde peixes sentimentais,
baleias continentais
E águas-vivas monumentais, bateram-lhes à porta, a pedirem
socorro para mais uma estrela caída.
A estrela calou-se em Málaga.
Picasso mostrou-a em cubos.
Calou-se o pranto dos filhos do deserto,
míseros escravos, líricos, livres dos amores
e dos andores incertos.
Dos amores impossíveis que fecharam o mar de Cervantes,
àquela hora acorrentado à fuga, e a mais uma canção sem voz.
Perdido dos remos,
Qual voz me valeria depois daquela festa?
Não havia intenção de os amantes voltarem ao sol de Maceió.
Perdidos dos sinais do tempo recente,
plenificados das incertezas
E da imensidão dos desencontros,
Eles mergulharam a barca entre as pedras,
E lá no fundo mais profundo das correntezas,
Afogaram as mais festivas e mais contundentes
E as mais presumíveis dissipações.

CK
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 26/01/2025
Alterado em 27/01/2025
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