A poesia e o seu fio condutor: o sentimento
Octávio Paes começa o seu "O Arco e a Lira" dizendo que a poesia é conhecimento, salvação, poder e abandono. Transformadora de mundos, a poesia é acima de tudo libertadora e revolucionária.
Para escrever poesia você não atende a um rigor intelectual, porque é um fenômeno de entrega espiritual.
A atividade poética tem por natureza entregar sua força de libertação interior.
É indicadora de viagens, e de todas as viagens que evoca, de uma forma natural ou primordial,
sua primeira ação é fazer com que o poeta retorne às suas origens.
É a maneira de empreender o seu exorcismo existencial.
Tocando no que conhecemos e dominamos, certamente pelos valores de raiz ainda arraigados,
a poesia nos convida a tecer o mérito das marcas das nossas lembranças e da nossa formação moral.
Até o momento de transformar o passarinho que somos em águias de asas olímpicas e devastadoras de horizontes,
a poesia se apropria do poeta como instrumento próprio, direcionando-o, exigindo respeito
quanto ao seu ritmo, e o educando quanto a busca incessante do que é belo, ou que pareça extraordinário
para o leitor.
A poesia não é filha do acaso.
Ela nos envolve pela sedução, até nos conquistar e nos tornar reféns de suas atemporalidades.
A poesia nos conforta e nos defende do vazio.
Se estamos angustiados, ela se posiciona como oratório de proteção e defesa, nos livrando
de uma temerosa angústia.
Na melancolia ou tédio, a poesia demonstra sua capacidade desdobrável de erigir forças, imagens,
discursos adormecidos, provedores do novo espírito alegre capaz de reposicionar o homem novo
de volta às suas inteligências.
Embora filosófica e intensamente politizada, a poesia moderna, ordinariamente, pode nos levar a agir
com leveza e renunciar a profundidades, desde que apresentemos o que seja profundamente original.
Vamos pegar como exemplos, A máquina do mundo, do Carlos Drummond de Andrade,
ou Tabacaria, de Álvaro de Campos, de um lado; e do outro lado, qualquer poesia do Manoel de Barros.
A natureza textual forte de um estilo foge assustadoramente da sensibilidade lírica do outro,
e, no entanto, são profundamente originais.
O objeto da poesia é exclusivamente a sensibilidade, uma vez que nos condiciona olhar, analisar o universo,
e encontrar nele, plasmando, a essência das coisas, o senso extraordinário que produza memórias
e imagens através de palavras.
Octávio Paes ainda estende o seu arco para dizer: o poema é um caracol por onde a música ressoa
trazendo suas correspondências, através de ecos e da harmonia universal.
A poesia sugere que busquemos o fenômeno das coisas externas: ou seja, aquilo que nos pareça distante
do nosso alcance.
Aristóteles foi quem primeiro chamou atenção para a existência da poesia nas obras de arte e na música,
dança, teatro... A poesia aguça o rigor do nosso ouvido, bem como desenvolve em nós o jeito de captar
com fluência e imponderabilidade o que é imperceptível aos olhos comuns.
Há um elemento criador que os faz circular no mesmo universo.
Mia Couto em certa conferência disse que o amanhã de um escritor é o caminho de trabalho mais incerto.
Assim, como Octávio Paes também já disse, que, realizado o momento maravilhoso do fechamento de um trabalho,
acaba, ali, a sua criação.
A partir daquele momento nada já lhe servirá se outra ideia maravilhosa não surgir.
A voz que seria de todo um povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário, a poesia é a mais nobre
e exigente forma de escrita:
por ela somos obrigados a recorrer ao luxo das palavras, à nobreza do léxico fora da trivialidade
da linguagem comum.
Pura ou impura, maldita, marginal, sagrada, popular, minoritária, a poesia é a mulher clássica
que quer se despir, ascender da multidão se imaginando bela, extraordinária, dona de um impactante
sorriso, porém, ao acender as luzes, ela se retrai: cai o pano e ela se pega sem rosto algum na multidão.
Esta metáfora pretende explicar o fenômeno da aceitação universal da poesia.
Ser poeta é entender o fenômeno natural da sensibilidade, e a capacidade de com este fenômeno se envolver, peremptoriamente, porque a sua mensagem é dirigida às sensibilidades que lhe atraem.
O fio condutor da poesia será sempre o sentimento.
O seu manancial é a sutileza e capacidade de observação, sobretudo a obrigatoriedade de realçar
o que não está explícito.
A natureza da poesia quer nos surpreender.
E a poesia que nos surpreende é aquela que ostenta a poderosa capacidade de nos prender
dentro dos sonhos.
Carlos Kahë
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 18/01/2025
Alterado em 29/01/2025