Ambiente de rua - refletindo com uma antiga personalidade
José, e agora? ... Aguarde só mais um pouco. Não saia, assim, desorientado. A mim, essa ideia de "massa" me dá medo!
José, é do cidadão comum a necessidade de esconder-se atrás de uma ordem. É do cidadão comum a necessidade de
anular-se diante das personalidades autoritárias com potencial fascista. O homem comum é um ser incapaz de lutar
por sua autonomia. Ele é conformado e acredita no poder e na força universal como resolução dos problemas da humanidade. José, o cidadão comum prioriza a identificação cega dialogando com o coletivo, e traz na sua personalidade,
o desejo de uma ordem sustentada por um grande aparato estatal, que o governe com mãos de ferro.
José, para o indivíduo comum o que funciona é a troca do indivíduo pela massa. É a exaltação das forças, as simbologias nacionais com o falso calor de integração, e tudo isso acontece, porque ele se imagina entre iguais. Esta é mais uma ilusão
do homem comum. Outra ilusão é ele ressaltar os valores do nacionalismo com um orgulho colossal. O seu pão da vida é a palavra de ordem. Essa faceta revela, no indivíduo fraco de ideias, a necessidade de compensar-se com quem pensa menos que ele. Eis o que chamamos de narcisismo coletivo.
A satisfação do cidadão comum é estar protegido pelo poder, e saber-se protegido pelas personalidades autoritárias, sem conteúdo, mas identificadas com a sua história. No ajuntamento, a massa se empolga defendendo o autoritarismo reprimido em si mesma, pois nesses modelos de sociedade, a autonomia é (ideologicamente) negligenciada.
José, eles investem contra o sujeito “dito” inferior, para não o ver livre, arregimentando a própria vida. Fazem-no saborear uma felicidade, ainda que sofrida, justamente, por considerá-lo um out-sider capturado pelas redes da submissão. Esta é ideia de "massa" que me dá medo. A maioria das pessoas têm essa necessidade, José. E nessa toada, o mundo não vai mudar.
José você é doce, e esta sua doçura não te deixa ver a força que pisoteia os homens. Olhando o panorama com esse olhar inocente, tu nem vai perceber que criaste em ti uma resistência contra os homens pisoteados. É um sentimento latente, mas ele está aí a quase alterar o teu ânimo.
José, pare e pense um pouco: os mandantes trazem nos olhos e nas mãos a autoria dos crimes que eles dizem combater.
Você ignora tudo isso, José... Está claro que ignora. Você, o seu vizinho, a sua rua, e até aqueles que comem no teu prato.
Comendo e ignorando o que comem, a saciedade faz com que o alimento que querem que multiplique termine, mesmo, sendo multiplicado.
Carlos Kahê
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 10/01/2025
Alterado em 26/02/2025