Kahê em pessoa
Potências que existem em nós.
Textos
Um dia, eles se foram

Um dia, eles se foram. E seria assim. A vida é desse jeito.
Sem as suas algazarras, o  jardim parece descuidado, os espelhos  sem esquadros, as janelas sem paisagens, a casa sem vibração.
Ficamos sós e desencantados: eu e dona novidade,plantando árvores de solidão.
O presépio natalino foi desarmado; guardamos as guirlandas de Noel na memória, e não há um pé de pessoa na rua, a quem possamos contar suas estórias.
Eles se foram e levaram as alegorias coloridas dos cabelos dela; quanto a ele, as opiniões divididas sobre o uso indiscriminados de suas telas.
As tecnologias se desgastaram. Não ficamos modernos;  ficamos indizíveis.
Sem o príncipe das asas fraturadas, o mato cresce sem cor, o lobo-mau se perdeu na estrada, Nietzsche, os santos velhos
e a vovozinha continuam mortos
na floresta.
Alexandre Dumas fez um sinal na minha  cruz.
O  chapéuzinho voou sobre a favela em busca de itinerários para novos caminhos de Jesus.
Depois que partiram, cores e sonoridades não estão mais presentes em nosso dia-a-dia.
O vermelho retornou ao pôr-do-sol e exibiu na ponta do seu nariz uma espécie de relicário.
Distante de nós, eles serão assuntos diários: voltaremos a exercer o medo, buscando os nossos lados longe dos soldados, dos seus painéis de cores risíveis e suas oficinas de brinquedos quebrados.
À noite, o pesar pela ausência da lua, e a tristeza
só de olhar as estrelas sem saber como vivem aqueles que esperam por nós.
Felicidade é mulher do povo.
Saudade é o tempo de ausência
que não move uma palha na manjedoura triste,  e ficou dormindo dentro de nós.
CK
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 09/01/2025
Alterado em 11/01/2025
Comentários
Site do Escritor criado por Recanto das Letras