Amor em tempos de escuridão
Um filho está perdido no mundo
Ele nunca voltou
Deixamos de viver juntos,
as nossas histórias.
Os nossos segredos ficarão guardados
em nossa memória, como um vendaval.
Sinto-me vencido, como se soubesse
de toda a verdade. Puta lucidez!
A esperança é que amanhã é Natal
E em meus sonhos, Papai Noel chegava trazendo
o menino nos braços.
Um homem não pode viver sem sonhos.
O homem precisa de suas referências
Faça um voo para dentro de si mesmo. Lá, tu entenderás melhor a vida
e os mistérios que habitam as profundezas
do seu mar sem fim.
Hoje, pleno meio-dia,
Eu vi a lua girar sozinha nos céus.
A lua cheia refletia corações intensos,
intensamente melancólicos.
Pleno meio-dia.
Mas ouvi, que se eu repetisse esta loucura,
seria interditado.
Não quero sobreviver aos que estão perdidos,
sem notícias.
Vivendo o tal mistério das coisas
por baixo das pedras e dos seres.
Finjo ter uma vida de verdade.
A inventei na crise de identidade
Quando perdi você e o diálogo
e o encantamento das tuas ideias.
Agora, procuro o seu abraço
e só encontro o vazio.
Os homens vazios sentam-se
à porta das biroscas,
onde parecem viver suas eternidades.
Ouvem música, sem música por dentro do que ouvem...
E esquecem que Deus é musical.
Eles não conhecem a ira de Deus.
Talvez a conheçam, mas não a identificam.
Experimentam uma espera ansiosa
sem qualquer relação com angústia
Mas, levados pela vida, todos os seus dias
são iguais.
Não sabem que estão para morrer.
Vão morrer sem aviso,
e sem criar laços afetivos com o universo.
Aguardam o restaurante popular abrir
as portas.
Naquele prato sem futuro está sua razão
de vida.
Lava a roupa suja nas lavanderias do governo,
Mas não pretende lavar o seu ódio.
Enquanto tive poder,
Lavei o meu rosto, lavei as mãos
Finquei a cruz na sombra da lua
E deixei que os corvos fizessem a festa
com os meus bagos.
Grãos de minha riqueza.
Todo dia eu abro o jornal, para saber notícias da novidade.
Ela nunca escreve nem devolve o nosso filho.
Na falta do álcool, injetaram vinagre
na sua carne.
Os cegos continuam sem memória.
Passou o Natal e não vieste.
Não mandou sequer um cartão vencido.
Não trouxe o nosso filho.
Fiquei a pensar nos teus olhos ...
Foste o tempo em que os teus olhos
quedavam-se, ávidos de notícias de mim.
Mas, todos os meus porres ainda são por ti.
Amanhece em meu espírito, um cachorro
vagabundo, vagando por uma rua enorme.
Ele busca a tua presença.
As aranhas sobem pela minha consciência
em busca de notícias, e arranham-me,
para que eu também fuja de mim.
Enquanto os teus olhos pousarem
sobre as minhas lembranças tristes,
não poderei esquecer-te.
Avisos íntimos garantem não ser tarde
para eu me perder.
Se você pudesse confirmar sua volta...
Esqueça,
Eu vejo que (agora) é impossível.
Aperto o meu coração contra o passado.
Vejo que as paredes ainda são firmes
e resistem ao massacre da memória.
Mordo-me de desejos.
Não há vida sem você.
És o meu calvário
O meu calcanhar de Aquiles
És o cavalo troiano
És a maquina do mundo
Lusíadas com rotas equivocadas...
És o peixe perdido, a procura de um bote.
Rocinante montado em Dom Quixote.
A veia turva a habitar as minhas paredes.
ruas cansadas dos foxtrotes.
Não sei o ponto exato em que a perdi.
Era um momento de escuridão
E saíamos de um orgasmo
que não completamos.
Acordei de um sonho
e deparei-me com essa vida
sem Novidade.
Lá, onde estás,
Todos vestem-se de branco,
e deitam sobre a relva que margeia
um lago de sol opaco.
Toda noite eu bebo garrafas inteiras
E fico ouvindo o latido das flores,
E vejo a chuva das tintas pintar os prados
E o bailado dos cães subir as paredes
do senado.
A escada majirus dar movimento
aos teus quadros.
No momento em que acordei,
vi que cantavas feliz, numa igreja
sem teto,
A igreja estava repleta.
Chovia e não te molhava.
Acordei bêbado, em outra vida.
E já não te tocava ...
Você se dissolveu e voou pelo espaço
Uma estrela cadente a rir de mim.
Voou com brevê definitivo.
Foi um momento de completa escuridão.
Ali, eu descobri que o Amor dura
o tempo necessário em que se reconhece.
Depois, tudo passa a ser hipótese.
CK
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 07/01/2025
Alterado em 04/02/2025