Feliz Ano Novo
Feliz Ano Novo
Toda manhã eu olho para o céu e o vejo quietinho, velhinho de tanto velar por nós. Ele fica lá, quietinho, deitado sobre a cobertinha de lã e sua roupinha plena de azul. Confesso que às vezes o vejo chorar. E quando chora, seus olhinhos tristes ficam cinzentos e os pontinhos azuis ganham o infinito que se esconde, sem nada nos roubar.
Depois de folgar os cadarços do dia, depois de mergulhar os pés na água morna da noite, o galo pula do seu ponto, retira o seu melhor canto e o empresta à madrugada. É o momento em que a Terra deixa transcender sua aurora. Por amor ou necessidade o viajante parte: vai carregar suas malas de compromissos; vai carregar os seus andores de pedra, e toda a beleza que lhe sobra, são os grilos, afazeres e prejuízos...
Sobram-lhes os medos e o cansaço, e a vida prossegue com sua rotina: o desespero nos hospitais, a casa descuidada, as maquinações diárias, as mães e suas dores silenciosas, a multifacetada procissão, sempre mais solitária, a guiar a luta pela vida... Chova ou faça sol, tudo é muito igual, todo santo-dia. Noites caladas, ruas desertas, homens silenciosos, velórios sem corpo, gente que presta, gente que se empresta, gente que não presta e são artefatos curriculares dentro dessa rotina.
Eu morro triste, mas sempre envolvido com a ressureição das minhas labutas, pois vivo ou morto, eu serei sempre culpado
de ver a estupidez diária vencer todas as guerras, e eu contribuir para que aconteça.
Todo final de dia, todo final de ano, eu me ponho a pensar na última pá de cal, na chave simbólica das nossas mortes, mas
enquanto não chegar esse dia, a vida continuará a puxar a linha invisível do tempo e vai segmentar, a mim e a ti, com um relógio ilusório; e vai nos sedimentar com experiências novas e desilusões incríveis.
É tolice pensar que não haverá vagas para nós, no futuro. Dentro de algum mistério, estaremos inseridos.
Não nasci hoje, e poderei morrer amanhã, mas não deixarei de pensar na finitude. Venho de muitos passados, sempre a admirar as flores risonhas dos outeiros; sempre colhendo os lírios livres, dos relvados ...
Há séculos, eu assisto os bruxos dos mosteiros queimarem esqueletos de homens que eles julgam sem salvação. Eis a mais cruel das rotinas.
O Ano fica velho todo dia, e envelheço, junto, embriagado, ouvindo a realidade dizer que sou descartável, que sou um grão
de areia diante do abismo mundano. Eu sou universal! Jamais serei igreja.
Sou mais uma ansiedade que não morre. Não quero ser mais uma morte sem solução. Não serei um pássaro bêbado, nem um jovem caduco que não aprendeu a medir a própria contradição.
Dentro de mim, apesar de ti e de todos, o Ano Velho continuará inspirando o Ano Novo. É a famosa vida que segue,
e ela seguirá, apesar das manchetes vazias, e das discussões sem sentido.
É triste de imaginar, mas as guerras, nas quais mais lutamos, o tempo as tornará inúteis. Vivemos esquecidos das inteligências, morremos embriagados, brigando por valores equivocados, e é mister aprender a manobrar as novas armas do futuro: a poesia, a pintura, a literatura e a dança... O teatro! __ As artes nos ensinam a maneira perfeita de resistir.
Good bye yellow brick road ficou no passado, e os labirintos de guerra se superam em inovação.
Ao chegarmos ao tão esperado "Fim de Ano", canta o tradicional "Adeus, Ano Velho... Feliz Ano Novo!" Não entendo o porquê desse adeus, se morreremos abraçados à tarde, e bem antes do final da noite, acordaremos resignados com o fardo que não nos abandona, dominando as nossas vidas. Adeus Ano Velho será sempre um adeus sem sentido, ou um aceno inútil e sem mãos.
CK
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 07/01/2025
Alterado em 26/02/2025