E a poesia, afinal, para que serve?
Diz a minha cozinheira que, a Filosofia é exercício para o cérebro. Sobre a minha cozinheira, eu falo somente em algumas palestras, que, além de ser a melhor pessoa (natureza) da minha casa, trata-se de um ser humano com uma história de vida compatível com a da Carolina Maria de Jesus, e ela também deseja escrever o seu livro, botar para fora as suas experiências de vida, contudo, acredita que o tempo de Deus ainda não chegou.
Então, por que resolvi nomeá-la, neste instante? Porque, Maria e a Filosofia, nos ensinam a pensar e a indagar sobre o real sentido das palavras, e, a mim, elas sugerem ir mais longe, se pretendo entender e me aprofundar no conceito que, ora tento sustentar.
Há quem encontre na simples palavra "poesia", uma certa flutuação de sentido.
No universo literário, a poesia é tida como a mais refinada das atividades afins, e quem cultiva as letras
tem a sede de se inteirar das coisas, pois são pessoas singulares vivendo os tempos modernos: são cultuadoras do intelecto e da força do entendimento das coisas que nos cercam; são pessoas que gostam de viajar de maneira intensa e interiorizada, e a essas viagens, somente os romances, somente a poesia, os contos e as crônicas admiráveis, são capazes de realizar conosco essa viagem.
Octávio Paes começa o seu "O Arco e a Lira" dizendo que a poesia é conhecimento, salvação, poder e abandono.
Transformadora de mundos, a poesia é acima de tudo libertadora e revolucionária.
Para escrever poesia, você não atende a um rigor intelectual, porque é um fenômeno de entrega espiritual.
A atividade poética tem por natureza entregar sua força de libertação interior.
É indicadora de viagens, e de todas as viagens que evoca, de uma forma natural ou primordial, cuja primeira ação é fazer com que o poeta retorne às suas origens.
Esta é a maneira de empreender o seu exorcismo existencial - botar para fora os seus demônios.
Tocando no que conhecemos e dominamos, certamente pelos valores de raiz ainda arraigados, a poesia nos convida a tecer o mérito das marcas das nossas lembranças e da nossa formação moral.
Até o momento de transformar o passarinho que somos em águias de asas olímpicas e devastadoras de horizontes,
a poesia se apropria do poeta como instrumento próprio, direcionando-o, exigindo respeito, quanto ao seu ritmo,
e o educando, quanto à busca incessante do que é belo, ou que lhe pareça extraordinário.
Poesia não é filha do acaso.
Antes de qualquer iniciativa, ela apela pela sensibilidade de entender o mundo, mas nos envolve e nos seduz, espiritualmente, movida pelos nossos visores invisíveis - que é uma outra esfera de entendimento - até nos conquistar e nos tornar reféns de suas atemporalidades.
A poesia nos conforta e nos defende do vazio. Livra-nos da angústia e se posiciona como oratório de proteção e de defesa.
No tempo de melancolia ou de tédio, a poesia demonstra sua capacidade desdobrável de erigir forças, imagens, discursos adormecidos, nos reveste de um novo espírito, alegre, capaz de reposicionar o homem novo de volta às suas inteligências.
Poesia é promessa de prazer.
A poesia trabalha com imagens, alterna silêncios e é bonita a maneira como vem disposta, graficamente, na página de um livro.
Lida em voz alta, seu ritmo visual, embalado pela sonoridade, traz à imaginação, os movimentos de imagens e de sabedoria, combinados numa vertigem que nos impacta.
Distendida ou extensa, a poesia trabalha os cinco sentidos. Há, inclusive, quem defenda que a poesia, por tradição, deva ser guardada na memória, pois aí é que ela se desdobra em coisa mental.
O objeto poesia
Este objeto se refere exclusivamente, à sensibilidade.
Uma vez que ela nos condiciona a olhar, analisar o universo, e encontrar nele, plasmando, a essência das coisas, o senso extraordinário que produza memórias e imagens através de palavras.
São esses momentos que nos definem cooptados pela poesia.
Octávio Paes ainda estende o seu arco para dizer:
que o poema é um caracol por onde a música ressoa, trazendo suas correspondências, através de ecos e da harmonia universal.
A poesia sugere que busquemos o fenômeno das coisas externas: ou seja, aquilo que nos pareça distante do nosso alcance.
Aristóteles foi quem primeiro chamou atenção para a existência da poesia nas obras de arte, excepcionalmente, na música,
dança, teatro, nas telas! ... A poesia aguça o rigor do nosso ouvido, bem como desenvolve em nós, o jeito de captar com fluência o que é imperceptível e imponderável, aos olhos comuns.
A missão de um poeta e escritor nunca acaba.
Mia Couto em certa conferência disse que o amanhã de um escritor é o caminho de trabalho mais incerto.
Assim, como Octávio Paes também já disse, que, realizado o momento maravilhoso do fechamento de um trabalho,
acaba, ali, a sua criação.
A partir daquele momento nada já lhe servirá se outra ideia maravilhosa não surgir.
Se eu fosse Octávio Paes, eu recuaria dois passos, para refletir sobre aquele pobre poeta diante da folha em branco. Principalmente da resma amassada, lançada à lixeira com desespero. Ao solitário poeta, naquele instante, faltou-lhe, simplesmente, a sensibilidade. Adélia Prado que é Adelia Prado, está lançando um novo livro, depois de doze anos, aproveitando - segundo ela mesma - anotações da sua juventude, porque a fonte se encantou. Estou falando de um ídolo meu: a maior poeta brasileira, viva.
A Linguagem poética
A voz que seria de todo um povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário, a poesia é a mais nobre e exigente forma de escrita: por ela somos obrigados a recorrer ao luxo das palavras, à nobreza do léxico fora da trivialidade da linguagem comum.
Para alguns teóricos, toda linguagem tem seu quê de poesia, e a poesia é onde a exigência pela linguagem mais acurada está evidente e em pauta.
A poesia brincando com a linguagem, enriquece a possibilidade de sentidos, além de explorar, significativamente, as coincidências sonoras, e sugere identidades, por analogia, através de imagens ou de metáforas.
Eis alguns exemplos: mulher é flor, homem é rocha, amor é fogo, nuvem é poeira, pedra é sono.
Pura ou impura, maldita, marginal, sagrada, popular, minoritária, a poesia é a mulher clássica que quer se despir,
ascender da multidão se imaginando bela, extraordinária, dona de um impactante sorriso.
Porém, ao acender as luzes, ela se retrai: cai o pano e ela se pega sem rosto algum na multidão.
Esta metáfora pretende explicar o fenômeno da aceitação universal da poesia.
Mas, como fica o poeta nessa situação?
Ser poeta é entender o fenômeno natural da sensibilidade, e a capacidade de, com este fenômeno, nos envolvermos, inexoravelmente, porque a sua mensagem é dirigida às sensibilidades que lhe atraem.
Deslimites da palavra:
O poder da palavra é abranger sentidos que transcendam a linguagem, e nos levar a universos impensáveis, até para a proposta inicial do livro e o seu propósito de leitura.
Em síntese, o sentido que o texto nos traz, extrapola o próprio conteúdo do que lemos.
A mente de cada um é quem constrói sentidos e imagens, únicos, a ideia é não deixar coincidirem os pontos de vista,
do autor, do professor, de alunos e demais leitores.
A poesia que identificamos no cinema, pode estar refletida em um pequeno gesto, em uma nuvem que se dispersa, em uma folha que plaina, em uma árvore que se desfolha, nas folhas que fazem rimas ... como pode não estar em coisa alguma.
Antes de qualquer lugar ou situação, nós buscamos poesia na musicalidade das palavras, na veia poética romanceada, pois este é o seu habitat natural, e o desafio maior do escritor é poetizar uma notícia; é romancear a rotina, e há quem defenda que a poesia deveria ser popular, como há quem defenda que as escolas se distanciaram da Literatura.
Sobre o tema, não apresentarei uma tese, porque não vivo o dia a dia, nem a realidade atual das classes escolares.
Mas, seria salutar encontrar a poesia na boca do povo.
Já que a poesia da vida é bastante rude, e tem mais a ver com realismo do que com idealismos, mas, sabemos que a juventude repete o que lhe possibilitam em seu tempo de juventude.
Eu nunca me esqueço do pianista francês, André Rieu, em um programa popular da Rede Globo, como o Faustão, afirmar categoricamente, que o povo - no sentido lato da palavra - não canta/ouve a música erudita, porque os veículos os impossibilitam de ouvir. Em seguida, ele pôs o seu exemplo à prova, pedindo ao público que o acompanhasse, com assovios ou solfejos, as peças que ele passou a tocar. Todas as peças eruditas foram acompanhadas, de diferentes maneiras, porque reconhecidas pela total maioria. Este é o reduto da memória, ainda não engolido pelos tempos atuais.
Eu jamais desvinculei-me dos poemas de Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Coelho Neto. Da prosa de Julia Lopes de Almeida, Machado de Assis, Casimiro de Abreu, José de Alencar, autores apresentados pela minha Escola na adolescência.
Mais tarde, a poesia musicada de Gil e Torquato Neto; Chico Buarque, Caetano Velosos e Vandré, Belchior, passaram a escrever a minha própria história.
O que podemos considerar poético?
A comunidade leitora do nosso tempo - a comunidade jovem, particularmente - encontra na poesia dos rappers, o que eu encontrava na Geleia geral, na “brutalidade jardim”, de Gil e Torquato, ou nos Quereres de Caetano, "Oh, bruta flor do querer” ... Nos olhos fundos da Carolina, de Chico, valores que edificaram a minha história.
Mas se o jovem de hoje não alcança os significados dos versos dos poetas clássicos com o olhar social ou político, eles podem não estar sendo alimentados com os poetas clássicos, mas existe a chancela de abertura a outros poetas, e é desta maneira que o tempo caminha e leva o jovem de hoje a encontrar na fala dos seus poetas, os arroubos, as transpirações comuns em suas comunidades. E são poesias fortes, marcadas pela transpiração de vida.
Essa é, portanto, a poesia que os alimenta, e já está entranhada em sua realidade.
E não seriam outras que eles levariam às ruas.
Ponto para os professores de agora que demonstram estar atentos aos passos da humanidade.
O que consideramos poético, portanto, pode estar na vida, e também nas convenções de linguagem de pensamento e sentimentos que nos regem, enquanto seres sociais.
A Filosofia poderá dizer que a realidade, tal como a conhecemos, é produto dinâmico da linguagem, porém a linguagem aplicada em nosso conhecimento, nem sempre fará jus ao produto realidade.
Este é um princípio filosófico fundamental à civilização moderna. Mas, por ser poeta, e não filósofo, eu vou ficar com a poética: "aquilo que consideramos poético não está na vida, mas nas convenções de linguagem, de pensamento e sentimento
que nos regem, enquanto seres sociais".
O mundo é um ato de criação poética, onde todos interferimos neste ato.
Mas acontece que só percebemos a existência daquilo que nomeamos ou interferimos, direta ou indiretamente,
sob a ótica de minha religião, seja por nos portarmos como céticos, cientistas, demasiadamente humanos, ou alienados.
Aviso aos navegantes: o carnaval é assunto, meio de vida e análise, para quem ama o carnaval. Para quem vive do carnaval. Não é tema de interferência de igrejismos.
A poesia e o poeta:
A capacidade que temos de nos aproximar do poeta, é quando interagimos com o seu poema.
Quem se digna a amar a poesia torna-se (também) um pouco poeta, pois aprende a usar a palavra com o requinte
que ela requer.
O ato da criação, atuando sobre a própria linguagem, evoca a existência do mundo, implícita naquele seu criador.
Drummond escrevia com seu requinte verbal, irônico; Vinícius de Morais, buscava integrar o ideal do seu requinte, ao amor e à vida boêmia.
João Cabral buscou o requinte mais endurecido, nordestino. A pedra sobre a palavra.
Quem se arvora em ser poeta, ativa a riqueza construída dentro de si mesmo.
T. S. Eliot afirmou que a leitura é, em si mesma, uma experiência de vida: somos feitos daquilo que vivemos e daquilo que lemos.
Eu, que jamais distanciei-me dessa plêiade monumental, apanhei essa ideia, para dizer que o poeta ativa aquilo que está adormecido em si mesmo.
Cada um constrói o que vive, e cada um adiciona ao seu fazer poético, o que ele já acondicionou de suas leituras.
Eis a identificação das comunidades com os seus rappers. E o samba clássico dos morros com os lirismos eternos.
Modernismos:
Manoel Bandeira criou a expressão “poesia desentranhada” para o poema nascido de um detalhe irrisório da realidade:
o poema nascido de uma notícia de jornal, ou roubada à uma entrelinha de outra obra.
A intenção de Bandeira e dos modernistas era fugir dos poemas arrumadinhos, versejados, da simplicidade coloquial,
própria dos parnasianos. Isto, eles diziam ser uma defesa em prol da poesia verdadeira, essencial, ligada a momentos fugazes, que entrassem mais pela vida, deixando de lado a arte cansada imaginada, e então superada.
Eu discordo em parte:
Embora filosófica e intensamente politizada, a poesia moderna, ordinariamente, pode nos levar a agir com leveza e renunciar às profundidades exigidas, desde que apresentemos o que seja profundamente original.
Exemplo: A máquina do mundo, do Carlos Drummond de Andrade, e Tabacaria, de Fernando Pessoa.
Do outro lado, qualquer poesia do Manoel de Barros. Livros da Ingnorãças, por exemplo.
A natureza textual forte de um estilo, foge assustadoramente da sensibilidade lírica do outro, e, no entanto, são profundamente originais.
Qual é a cara da poesia, dita, moderna?
Instrumento captador das entranhas da rua, cujo ponto de intensidade no tempo é de um flash de luz, e o foco está no detalhe, que passa a ser a chave a abrir uma outra visão do real; focalizar o que está fora da linguagem, construir o inefável, ou seja, o que não chega a ser dito, mas que esteja intuído pela sensação e pelo verso, que pretenda atingir o que lhe pareça sublime.
CK
Carlos Kahê
Enviado por Carlos Kahê em 22/06/2011
Alterado em 31/01/2025